3. BRASIL 19.9.12

1. OS SEGREDOS DO MENSALO
2. A VEZ DOS MENSALEIROS
3. BATEU O DESESPERO
4. A OUSADIA DOS BANDIDOS

1. OS SEGREDOS DO MENSALO
O empresrio Marcos Valrio, apontado como operador do esquema, diz que, em troca do seu silncio, recebeu garantias do PT de um punio branda. Condenado pelo STF por vrios crimes, cujas penas podem chegar a 100 anos de priso, ele revela que o ex-presidente Lula sabia de tudo e que o caixa para subornar polticos foi muito maior: 350 milhes de reais.
RODRIGO RANGEL

     Faltavam catorze minutos para as 7 da manh da ltima quarta-feira quando o empresrio Marcos Valrio, o piv financeiro do mensalo, parou seu carro em frente a uma escola, em Belo Horizonte. Alvo das mais pesadas condenaes no julgamento que est em curso no Supremo Tribunal Federal (STF), ele tem cumprido religiosamente a tarefa de levar o filho todos os dias ao colgio. Desce do carro, acompanha o menino at o porto e se despede com um beijo no rosto. Chega mais cedo para evitar ser visto pelos outros pais e alunos e vai embora depressa, cabisbaixo. O PT me transformou em bandido, desabafa. Valrio sabe que essa rotina em breve ser interrompida. Ele  o nico dos 37 rus do mensalo que no tem um timo de dvida sobre seu futuro. Na semana passada, o publicitrio foi condenado por lavagem de dinheiro, crime que acarreta pena mnima de trs anos de priso. Computadas as punies pelos crimes de corrupo ativa e peculato, j decididas, mais evaso de divisas e formao de quadrilha, ainda por julgar, a sentena de Marcos Valrio pode passar de 100 anos de recluso. Mesmo com todas as atenuantes da lei penal brasileira, no  improvvel que ele termine seus dias na cadeia. Valrio tem culpa no cartrio, mas fica evidente que ele est carregando sobre os ombros uma carga penal que, por justia, deveria estar mais bem distribuda entre patentes bem mais altas na hierarquia do mensalo.  isso que mais martiriza a alma de Valrio neste momento, uma dor que ele tenta amenizar lembrando, sempre que pode, que seu silncio sobre os responsveis maiores acima dele est lhe custando muito caro.
     Apontado como o responsvel pela engenharia financeira que possibilitou ao PT montar o maior esquema de corrupo da histria, Valrio enfrenta um dilema. Nos ltimos dias, ele confidenciou a pessoas prximas detalhes do pacto que havia firmado com o partido. Para proteger os figures, conta que assumiu a responsabilidade por crimes que no praticou sozinho e manteve em segredo histrias comprometedoras que testemunhou quando era o predileto do poder. Em troca do silncio, recebeu garantias. Primeiro, de impunidade. Depois, quando o esquema teve suas entranhas expostas pela Procuradoria-Geral da Repblica, de penas mais brandas. Valrio guarda segredos to estarrecedores sobre o mensalo que no consegue mais reter s para si mesmo que agora, desiludido com a falsa promessa de ajuda dos poderosos que ele ajudou, tenha um crescente temor de que eles possam se vingar dele de forma ainda mais cruel. Os segredos de Valrio, se revelados, pem o ex-presidente Lula no epicentro do escndalo do mensalo. Sim, no comando das operaes. Sim, Lula, que, fiel a seu estilo, fez de tudo para no se contagiar com a podrido  sua volta, mesmo que isso significasse a morte moral e poltica de companheiros diletos. Valrio teme, e fala a pessoas prximas, que se contar tudo o que sabe estar assinando a pior de todas as sentenas  a de sua morte: Vo me matar. Tenho de agradecer por estar vivo at hoje.
     Sua mulher, Renilda Santiago, j tentou o suicdio trs vezes. H duas semanas, ela telefonou a uma amiga para dizer que iria a um reduto do trfico encravado na regio central de Belo Horizonte comprar uma arma. Avisou que havia decidido dar um tiro na cabea. Renilda est mergulhada em crise aguda de depresso. Os dois filhos do casal vivem dramas  parte. Meses atrs, o menino, de 11 anos, tentou fazer um teste de admisso em uma escola mais perto de casa, mas a diretora nem deixou o garoto comear a prova. A direo da escola no queria entre seus alunos o filho de Marcos Valrio. A filha mais velha, de 21 anos, passou por constrangimentos cruis. Em um debate na faculdade de psicologia, o assunto escolhido pelos colegas foi justamente o comportamento do pai dela. Humilhada, ela saiu da sala. Chega a ser assustador, mesmo que previsvel, que as pessoas esqueam a mais consagrada prtica crist, civilizada e jurdica  a de que os filhos no devem pagar pelos erros dos pais. Marcos Valrio sofre de sndrome do pnico e praticamente no prega os olhos  noite. Sobre o PT e seus antigos parceiros ele vem dizendo: Eu detesto esse pessoal. Esse povo acabou com a minha vida, me fez de um tamanho que eu no sou. O PT me fez de escudo, me usou como um boy de luxo. Mas eles se ferraram porque agora vai todo mundo para o ralo. O medo ainda constrange Marcos Valrio a limitar suas revelaes a pessoas prximas. At quando?

MENSALO
O caixa do PT foi de 350 milhes de reais
A acusao do Ministrio Pblico Federal sustenta que o mensalo foi abastecido com 55 milhes de reais tomados por emprstimo por Marcos Valrio junto aos bancos Rural e BMG, que se somaram a 74 milhes desviados da Visanet, fundo abastecido com dinheiro pblico e controlado pelo Banco do Brasil. Segundo Marcos Valrio, esse valor  subestimado. Ele conta que o caixa real do mensalo era o triplo do descoberto pela polcia e denunciado pelo MP. Valrio diz que pelas arcas do esquema passaram pelo menos 350 milhes de reais. Da SMP&B vo achar s os 55 milhes, mas o caixa era muito maior. O caixa do PT foi de 350 milhes de reais, com dinheiro de outras empresas que nada tinham a ver com a SMP&B nem com a DNA, afirma o empresrio. Esse caixa paralelo, conta ele, era abastecido com dinheiro oriundo de operaes to heterodoxas quanto os emprstimos fictcios tomados por suas empresas para pagar polticos aliados do PT. Havia doaes diretas diante da perspectiva de obter facilidades no governo. Muitas empresas davam via emprstimos, outras no. O fiador dessas operaes, garante Valrio, era o prprio presidente da Repblica.
     Lula teria se empenhado pessoalmente na coleta de dinheiro para a engrenagem clandestina, cujos contribuintes tinham algum interesse no governo federal. Tudo corria por fora, sem registros formais, sem deixar nenhum rastro. Muitos empresrios, relata Marcos Valrio, se reuniam com o presidente, combinavam a contribuio e em seguida despejavam dinheiro no cofre secreto petista. O controle dessa contabilidade cabia ao ento tesoureiro do partido, Delbio Soares, que  ru no processo do mensalo e comea a ser julgado nos prximos dias pelos crimes de formao de quadrilha e corrupo ativa. O papel de Delbio era, alm de ajudar na administrao da captao, definir o nome dos polticos que deveriam receber os pagamentos determinados pela cpula do PT, com o aval do ex-ministro da Casa Civil Jos Dirceu, acusado no processo como o chefe da quadrilha do mensalo: Dirceu era o brao direito do Lula, um brao que comandava. Valrio diz que, graas a sua proximidade com a cpula petista no auge do esquema, em 2003 e 2004, teve acesso  contabilidade real. Ele conta que a entrada e a sada de recursos foram registradas minuciosamente em um livro guardado a sete chaves por Delbio. Pelo seu relato, o restante do dinheiro desse fundo teve destino semelhante ao dos 55 milhes de reais obtidos por meio dos emprstimos fraudulentos tomados pela DNA e pela SMP&B. Foram usados para remunerar correligionrios e aliados. Os valores calculados por Valrio delineiam um caixa clandestino sem paralelo na poltica. Ele fala em valores dez vezes maiores que a arrecadao declarada da campanha de Lula nas eleies presidenciais de 2002.

O PRESIDENTE
Lula era o chefe
A ira de Marcos Valrio desafia a defesa clssica do ex-presidente Lula de que no sabia do mensalo e nada teve a ver com o esquema arquitetado em seu primeiro mandato. Com a segurana de quem transitava com desenvoltura pelos gabinetes oficiais, inclusive os palacianos, e era considerado um parceiro preferencial pela cpula petista, Valrio afirma que Lula comandava tudo. Em sua prpria defesa, diz que como operador dos pagamentos no passava de um boy de luxo de uma estrutura que tinha o ento presidente no topo da cadeia de comando. Lula era o chefe, repete Valrio s pessoas mais prximas. A afirmao se choca com todas as verses apresentadas por Lula desde que o esquema foi descoberto, em 2005. Primeiro, escudou-se no argumento de que tudo no passou do uso de dinheiro no contabilizado que havia sobrado das campanhas polticas, prtica supra-partidria e recorrente na poltica brasileira  no por acaso tem sido essa a estratgia de defesa dos mensaleiros no STF. Num segundo momento, Lula se disse trado e pediu desculpas  nao em rede de televiso. 
     A rota de fuga de Lula evoluiu mais tarde para a negao completa, com a tese nefelibata de que o mensalo nunca existiu, tendo sido apenas uma armao das elites para abreviar seu mandato. A narrativa de Valrio coloca Lula no apenas como sabedor do que se passava, mas no comando da operao. Valrio no esconde que se encontrou com Lula diversas vezes no Palcio do Planalto. Ele faz outra revelao: Do Z ao Lula era s descer a escada. Isso se faz sem marcar. Ele dizia vamos l embaixo, vamos. O Z  o ex-ministro Jos Dirceu, cujo gabinete ficava no 4 andar do Palcio do Planalto, um andar acima do gabinete presidencial. A frase famosa e enigmtica de Jos Dirceu no auge do escndalo  Tudo que eu fao  do conhecimento de Lula  ganha contornos materiais depois das revelaes de Valrio sobre os encontros em palcio. Marcos Valrio reafirma que Dirceu no pode nem deve ser absolvido pelo Supremo Tribunal, mas faz uma sombria ressalva. No podem condenar apenas os mequetrefes. S no sobrou para o Lula porque eu, o Delbio e o Z no falamos, disse na semana passada, em Belo Horizonte. Indagado, o ex- presidente no respondeu.
     
PACTO
Meu contato era o Okamotto
     H menos de dois meses, VEJA revelou a existncia de encontros secretos entre Marcos Valrio e Paulo Okamotto, petista estrelado que desempenha a tarefa de assessor financeiro, ou tesoureiro, de Lula. Procurado para explicar por que se reunia com o principal operador do mensalo, Okamotto disse que os encontros serviam apenas para discutir poltica. No, no era bem assim. Marcos Valrio tinha um pacto com o PT, e Paulo Okamotto era o fiador desse pacto. Eu no falo com todo mundo no PT. O meu contato com o PT era o Paulo Okamotto, disse Valrio em uma conversa reservada dias atrs.  o prprio Valrio quem explica a misso de Okamotto: O papel dele era tentar me acalmar. O empresrio conta que conheceu o Japons, como o petista  chamado, no pice do escndalo. Valrio diz que, na vspera de seu primeiro depoimento  CPI que investigava o mensalo, Okamotto o procurou. A conversa foi na casa de uma funcionria minha. Era para dizer o que eu no devia falar na CPI, relembra. O pedido era bvio. Okamotto queria evitar que Valrio implicasse Lula no escndalo. Deu certo durante muito tempo. Em troca do silncio de Valrio, o PT, por intermdio de Okamotto, prometia dinheiro e proteo. A relao se tornaria duradoura, mas nunca foi pacfica. Em momentos de dificuldade, Okamotto era sempre procurado. Quando Valrio foi preso pela primeira vez, sua mulher viajou a So Paulo com a filha para falar com Okamotto. Renilda Santiago queria que o assessor de Lula desse um jeito de tirar seu marido da cadeia. Disse que ele estava preso injustamente e que o PT precisava resolver a situao. A reao de Okamotto causa revolta em Valrio at hoje. Ele deu um safano na minha esposa. Ela foi correndo para o banheiro, chorando. O empresrio jura que nunca recebeu nada do PT. J a promessa de proteo, segundo Valrio, girava em torno de um esforo que o partido faria para retardar o julgamento do mensalo no Supremo e, em ltimo caso, tentar amenizar a sua pena. Prometeram no exatamente absolver, mas diziam: Vamos segurar, vamos isso, vamos aquilo... Amenizar, conta. Por muito tempo, Marcos Valrio acreditou que daria certo. Procurado, Okamotto no se pronunciou.

PODER
O Delbio dormia no Alvorada
Dos tempos em que gozava da intimidade do poder em Braslia, Marcos Valrio diz guardar muitas lembranas. Algumas revelam a desenvoltura com que personagens centrais do mensalo transitavam no corao do governo Lula antes da ecloso do maior escndalo de corrupo da histria poltica do pas. Valrio lembra das vezes em que Delbio Soares, seu interlocutor frequente at a descoberta do esquema, participava de animados encontros  noite no Palcio da Alvorada, que no raro servia de pernoite para o ex-tesoureiro petista. O Delbio dormia no Alvorada. Ele e a mulher dele iam jogar baralho com Lula  noite. Alguma vez isso ficou registrado l dentro? Quando voc quer encontrar (algum), voc encontra, e sem registro. O operador do mensalo deixa transparecer que ele prprio foi a uma dessas reunies noturnas no Alvorada. Sobre sua aproximao com o PT, Valrio conta que, diferentemente do que os petistas dizem h sete anos, ele conheceu Delbio durante a campanha de 2002. Quem apresentou a ele o petista foi Cristiano Paz, seu ex-scio, que intermediava uma doao  campanha de Lula. A primeira conversa foi em Belo Horizonte, dentro de um carro, a caminho do Aeroporto da Pampulha. Nessa ocasio, conta, Delbio lhe pediu ajuda. Ele precisava de uma empresa para servir de espelho para pegar um dinheiro. A parceria deu certo e desaguou no mensalo. Hoje, os dois esto no banco dos rus. Valrio se sente injustiado. Especialmente na parte da acusao que diz respeito ao desvio de recursos pblicos do Banco do Brasil. Ele jura que esse dinheiro no caiu no caixa da corrupo. No processo tem todas as notas fiscais que comprovam que esse dinheiro foi gasto com publicidade. No estou falando que no mereo um tapa na orelha. No  isso. Concordo em ser condenado por aquilo que eu fiz.

EMPRSTIMO
O banco ia emprestar dinheiro para uma agncia quebrada?
Os ministros do STF j consideraram fraudulentos os emprstimos concedidos pelo Banco Rural s agncias de publicidade que abasteceram o mensalo. Para Valrio, a deciso do Rural de liberar o dinheiro  com garantias fajutas e Jos Genoino e Delbio Soares como fiadores  no foi um favor a ele, mas ao governo Lula. Voc acha que chegou l o Marcos Valrio com duas agncias quebradas e pediu: Me empresta a 30 milhes de reais pra eu dar pro PT? O que um dono de banco ia responder? Valrio se lembra sempre de Jos Augusto Dumont, ento presidente do Rural. O Z Augusto, que no era bobo, falou assim: Pra voc eu no empresto. Eu respondi: Vai l e conversa com o Delbio. A partir da a soluo foi encaminhada. Os emprstimos, diz Valrio, no existiriam sem o aval de Lula e Dirceu. Se voc  um banqueiro, voc nega um pedido do presidente da Repblica? Foram essas mesmas credenciais palacianas, segundo ele, que lhe abriram as portas no Banco Central para interceder pela suspenso da liquidao extrajudicial do Banco Mercantil de Pernambuco, que interessava ao Rural. Valrio foi destacado para cuidar do assunto em Braslia. Uma tarefa executada com todas as facilidades e privilgios. Valrio chegou l no Banco Central e foi atendido. Voc acha que o Banco Central receberia um imbecil qualquer, dono de uma agncia de publicidade quebrada?

NOJENTO E VEXATRIO
Ex-superintendente do Banco Rural em Braslia, Lucas da Silva Roque foi um dos principais colaboradores nas investigaes da Polcia Federal destinadas a desbaratar a quadrilha do mensalo. Foi ele quem revelou onde estavam os recibos que mostraram quais polticos receberam dinheiro para votar com o governo Lula no Congresso. Nesta entrevista, Roque conta que pagou um preo alto por agir de forma correta e relata um plano ambicioso urdido pela cpula da instituio financeira em parceria com Jos Dirceu. Eles queriam montar um banco popular, do qual Rural e BMG seriam scios, para conceder emprstimos consignados aos aposentados. Um negcio companheiro e bilionrio.

Por que o senhor decidiu ajudar a polcia? 
No tinha nada a temer. No entrei no jogo deles, no sou bandido. Fui mandado para a agncia do Rural em Braslia para moraliz-la, porque ali estava uma baguna. O que estava acontecendo no banco era acintoso, nojento e vexatrio. O delegado disse que queria todos os documentos. Apontei onde estavam as caixas. Aquela altura, j estava tudo encaminhado para fazer sumir as provas, mandando-as de Braslia para Minas Gerais. Mostrei onde estavam os documentos e falei para o delegado que procurasse papis tambm numa construtora, que servia de almoxarifado do banco.

Como a diretoria reagiu  sua colaborao com a PF? 
Fui atacado de tudo quanto  jeito. Me colocaram em um poro que no era uma agncia bancria, depois em uma loja de shopping que foi fechada por ser irregular. Pior, mandaram me avisar que eu estava proibido de aparecer na diretoria do banco. Isso foi em outubro de 2005. Virei a Geni. Fui demitido em agosto de 2010. Eu, minha esposa e meus filhos fomos achincalhados na rua como mensaleiros. Tive srios problemas de sade, perdi meu casamento.

O senhor tinha relao de proximidade com Marcos Valrio. Ele disse a algumas pessoas que teve um encontro com Lula na Granja do Torto. Vrios encontros.  verdade? 
Sim, ele deixava para viajar para Belo Horizonte no sbado  noite para passar l.

Levado por quem? 
Delbio Soares, Silvinho Pereira e Jos Dirceu.

Quais eram os planos da cpula do Banco Rural e dos petistas? 
Eles tinham um projeto de montar um banco popular com a CUT. Juntariam o Banco Rural, o BMG, a CUT. Era um projeto com capital de 1 bilho de reais.

Quem capitaneava esse projeto? 
Eram os bandidos do mensalo. Como o PT no tinha cultura bancria, o Rural e o BMG seriam scios. Um banco privado com a participao da CUT, que direcionaria todos os beneficirios do INSS para tomar dinheiro em emprstimos consignados nessa instituio popular. Quando o mensalo estourou, o projeto foi abortado.
HUGO MARQUES


2. A VEZ DOS MENSALEIROS
O STF comea a julgar os polticos acusados de receber propina do maior esquema de corrupo da histria.
LAURA DINIZ

     Nas 23 sesses de julgamento do processo do mensalo realizadas at agora, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou, uma a uma, as alegaes usadas pelo PT para qualificar de farsa o maior esquema de corrupo da histria poltica do pas. Primeiro, os ministros reconheceram o desvio de recursos pblicos da Cmara dos Deputados e do Banco Brasil para financiar o suborno de parlamentares a servio da gesto do ex-presidente Lula. Depois, classificaram de fraudulentos os emprstimos concedidos pelo Banco Rural a duas empresas de Marcos Valrio e ao PT, deixando claro que a instituio financeira repassou dinheiro ao empresrio e ao partido porque esperava receber, em contrapartida, um tratamento privilegiado do governo  o que de fato ocorreu. Na semana passada, mais um golpe solapou a argumentao petista. Os ministros declararam que o Rural aceitou ser usado para esconder a origem e o destino do dinheiro sujo que comprou congressistas e lderes de partido. A deciso encerrou a parte do julgamento dedicada a mostrar o caminho do dinheiro  um caminho criminoso no incio, no meio e no fim. Depois da condenao dos envolvidos na engrenagem financeira do mensalo, o processo entrar em etapa crucial nesta semana: o julgamento da clientela do esquema. Os ministros decidiro se houve a compra de apoio poltico. Sero julgados 23 rus. Deputado cassado e ex-ministro da Casa Civil, o petista Jos Dirceu responder por corrupo ativa, ao lado do ex-presidente do PT Jos Genoino e do ex-tesoureiro Delbio Soares. O trio  responsvel, segundo a denncia do Ministrio Pblico, pelo suborno de sete parlamentares e dirigentes partidrios. Na semana passada, os ministros condenaram trs dirigentes do Rural, entre eles a ex-presidente Ktia Rabello, Valrio e seus dois ex-scios, alm de um advogado e uma funcionria do operador do mensalo. O Supremo entendeu que as ilegalidades cometidas at o momento em que os recursos dos mensaleiros foram sacados na agncia do Rural constituem lavagem de dinheiro. Os ministros destacaram a estratgia de apontar formalmente como sacadora a agncia de Valrio, a fim de acobertar a verdadeira identidade dos beneficirios, os mensaleiros. Isso s foi descoberto depois da operao de busca e apreenso da Polcia Federal, que contou com a ajuda de um ex-superintendente do Rural.

O FUTURO MINISTRO
Preocupados com as condenaes em srie no processo do mensalo, alguns petistas pressionaram a presidente Dilma Rousseff a indicar para o Supremo Tribunal Federal (STF), na vaga aberta com a aposentadoria de Cezar Peluso, um ministro-companheiro  algum simptico  tese farsesca do caixa dois e predisposto a absolver o ex-ministro Jos Dirceu, o ex-deputado Jos Genoino e outros peixes grandes. A presidente Dilma repeliu as presses, insufladas em grande parte pelo ex-presidente Lula. Sem sujeitar as prerrogativas do cargo a interesses partidrios, ela indicou Teori Albino Zavascki, de 64 anos, ao STF apenas sete dias depois da sada de Peluso. Assim, abateu as pretenses dos companheiros de partido, lembrando-os de que a Constituio exige a indicao de nomes com reputao ilibada e notrio saber jurdico. Zavascki pertence hoje aos quadros do Superior Tribunal de Justia (STJ), para o qual foi indicado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em 2002 e nomeado por Lula em 2003. Professor e autor de cinco obras de direito, Zavascki  conhecido pela slida formao jurdica, atuao tcnica e pela discrio. Ele tem uma histria judicante j longa.  um grande acadmico e tem uma bagagem respeitvel, disse o ministro Marco Aurlio Mello. D para ver que  uma pessoa recolhida, discreta. Tem uma formao muito densa e  um bom constitucionalista, reforou o ministro Gilmar Mendes. Antes de assumir uma cadeira no STF, Teori Zavascki precisa ser sabatinado e aprovado pelo Senado, outra exigncia constitucional. Esse processo deve ser concludo em outubro. O novo ministro assume a tempo de participar do julgamento do mensalo. Segundo integrantes do governo e parlamentares com quem Zavascki falou sobre o assunto, ele deve se abster de votar por no conhecer o processo em detalhes. A presidente Dilma j indicou dois magistrados para a corte: Luiz Fux e Rosa Weber. Ao votarem no mensalo, ambos reconheceram a ocorrncia dos crimes de corrupo, peculato e lavagem de dinheiro, contrariando a expectativa de alguns petistas esperanosos em aparelhar o Supremo para garantir a impunidade dos companheiros do mensalo.
ADRIANO CEOLIN


3. BATEU O DESESPERO
Dilma atende aos apelos de Lula e d ministrio a Marta Suplicy, em uma ofensiva para levar Fernando Haddad ao segundo turno e evitar vexame histrico do PT.
OTVIO CABRAL

     As capitais dos 26 estados brasileiros voltaram a eleger diretamente seus prefeitos em 1985, com o fim do regime militar. Desde a primeira disputa, o PT foi protagonista  naquele ano surpreendeu ao eleger Maria Luiza Fontenelle em Fortaleza. Trs anos depois, o partido venceu em So Paulo, Porto Alegre e Vitria. Nas eleies seguintes, seu desempenho s foi melhorando. Chegou ao pice em 2004, quando Luiz Incio Lula da Silva era presidente da Repblica, e nove capitais passaram a ser governadas por petistas. Hoje, o PT administra sete capitais. A aposta era ao menos repetir a performance. Mas, faltando trs semanas para o primeiro turno, as pesquisas mostram um cenrio alarmante para os petistas. Apenas em Goinia h chance de vencer no primeiro turno. Se as previses se confirmarem, o partido da presidente Dilma Rousseff poder amargar o pior desempenho de sua histria. Para tentar reduzir os danos, o governo entrou em ao. Na semana passada, Dilma nomeou Marta Suplicy para o Ministrio da Cultura. O PT espera que Marta, investida do cargo, passe enfim a se dedicar  campanha de Fernando Haddad  prefeitura de So Paulo.
     Duas pesquisas divulgadas na semana passada mostraram Haddad em terceiro, disputando um lugar no segundo turno com Jose Serra, do PSDB. A outra vaga j  praticamente de Celso Russomanno, do inexpressivo PRB. Uma vitria na principal cidade do pas transformaria um fracasso retumbante em um desempenho honroso. Por isso, Lula e Dilma resolveram aumentar sua participao. O ex-presidente, que j era um coordenador informal da campanha, passou a ancorar os programas de rdio e interferir nos roteiros de TV. Dilma, que pretendia aparecer apenas no segundo turno, antecipou suas gravaes. Mesmo assim, Haddad cresce nas pesquisas a um ritmo inferior ao planejado. A entrou em ao o projeto Marta. Ex-prefeita entre 2001 e 2004, ela tem ndices significativos de popularidade na periferia, onde Haddad patina. Preterida por Lula na escolha do candidato, Marta se recusava a participar de eventos de campanha. Com o ministrio, as divergncias com Lula e Haddad desapareceram imediatamente. Ela j gravou para a TV e, no fim de semana, participaria dos dois primeiros comcios.
     Mesmo na hoje improvvel hiptese de reverter o quadro em So Paulo, o desempenho do PT neste ano serve de alerta. H duas semanas, Lula reuniu-se com os ex-ministros Jos Dirceu e Marcio Thomaz Bastos e o presidente do PT, Rui Falco. A avaliao foi de que o mensalo abalou o prestgio do partido. O julgamento do mensalo virou um espetculo muito maior do que o imaginado. Os embates entre os ministros e a comprovao de que houve desvio de dinheiro pblico, dos impostos pagos pela populao, tornaram o caso tema de conversa de boteco, o que desgastou candidatos do PT, analisa o cientista poltico Rubens Figueiredo. Alm disso, a concorrncia passou a ser maior, j que os partidos da base, insatisfeitos com a postura mais firme de Dilma Rousseff, que no transige com aliados pilhados em corrupo, deixaram de apoiar automaticamente os petistas. Dilma ajuda os candidatos do PT, mas age com mais moderao do que Lula, o que cria atritos que se refletem na eleio, avalia Figueiredo.
     Alm das dificuldades do PT, estas eleies pem em xeque verdades absolutas da poltica. A primeira  que h uma irreversvel polarizao entre PT e PSDB, sem espao para novos partidos. Pode ser fato nas eleies presidenciais, em que foi a lgica das ltimas cinco disputas. Mas, nas 26 capitais, h onze partidos liderando. E a disputa entre petistas e tucanos s existe em Rio Branco, no Acre. A outra verdade questionada  que apenas candidatos com tempo grande na TV tm chance de vitria. Em So Paulo, o lder Russomanno tem dois minutos de propaganda, um quarto do tempo de seus rivais. Em Curitiba, Ratinho Jnior, do PSC, lidera com um tempo ainda menor. So apenas dois de uma dezena de exemplos que se espalham pelo pas. E que podem encorajar quem pretende disputar a Presidncia com uma estrutura menor que a do PT e PSDB, como o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB.
COM REPORTAGEM DE ADRIANO CEOLIN


4. A OUSADIA DOS BANDIDOS
No Rio e em So Paulo, os criminosos ainda dominam regies inteiras e acham que podem substituir a Justia.
LESLIE LEITO E JULIA CARVALHO

     Mesmo depois de avanos extraordinrios obtidos no Rio de Janeiro e em So Paulo,  ainda assustador o poder do crime organizado nas grandes metrpoles brasileiras. Dois episdios ocorridos na semana passada mostram essa situao com desconfortvel crueza. No Rio de Janeiro, bandidos mataram jovens e adolescentes que nunca passaram por delegacias sem explicao alguma, talvez porque tenham simplesmente achado que eram membros de uma quadrilha rival entrando em seu territrio. Em So Paulo, a Polcia Militar matou oito bandidos que se reuniam em um stio para julgar um acusado de estuprar uma menor. O caso do Rio revela que bandidos ainda dominam territorialmente regies inteiras. O de So Paulo mostra que a ousadia do PCC, a faco criminosa que resiste no estado, chega a ponto de achar que pode substituir a Justia.
     As duas histrias so assustadoras pela total inverso de valores. No Rio, o cenrio do crime foi Mesquita, na Baixada Fluminense. Ali, desde o sbado 8, foram descobertas dez pessoas executadas, cinco delas menores de idade. At o fim da semana, no se conhecia o real motivo para a brbara chacina. A PM ocupou a favela mais prxima, a Chatuba, e vasculhava, atrs de indcios, o vizinho Parque Natural do Gericin, uma rea de instruo do Exrcito abandonada. O que foi possvel montar do terrvel quebra-cabea revela crueldade. Os amigos Christian Vieira, de 19 anos, Victor Costa, Douglas Ribeiro e Glauber Siqueira, de 17, Josias Searles e Patrick Machado, de 16, moradores de Nilpolis, foram assistir a uma competio de pipas em Mesquita e de l seguiram para um banho de cachoeira no Gericin. Seus corpos, depositados a 9 quilmetros de distncia, foram enrolados em lenis, amordaados, espancados e tinham tiros na cabea. O stimo morto, o cadete Jorge Alves Jnior, de 34 anos, estava no porta-malas de seu carro numa rua prxima. O pastor Alexandro Lima, de 37 anos, caminhava numa trilha quando foi assassinado a tiros; a seu lado jazia Jos Aldecir da Silva Jnior, de 19 anos, que ficou sumido at seu pai levar a polcia ao corpo. Embaixo dele, na cova improvisada, foi encontrado outro cadver, supostamente enterrado h mais tempo. At sexta-feira, a polcia havia detido 22 pessoas e ainda buscava explicaes para a matana.
     Em So Paulo, na tera-feira 11, a Rota, a tropa de elite da Polcia Militar, estourou um tribunal do crime que era conduzido pela faco criminosa PCC. Os bandidos decidiam qual seria a punio de Maciel Santana da Silva, de 21 anos, por tentar agarrar uma menina de 12 anos no meio da rua. No local escolhido para o julgamento, uma chcara alugada em Vrzea Paulista, a 60 quilmetros da capital, estavam tambm a menina e a me dela  a quem os criminosos perguntaram qual deveria ser a pena. Eu disse que ele deveria viver, afirmou a me. Segundo ela, o bando procurou Silva por conta prpria, pediu  famlia da jovem que reconhecesse o acusado e assistisse ao julgamento. A Rota chegou ao local no momento em que a sesso se encerrava  com a absolvio do ru, um desfecho raro nesses casos, quando  comum uma sentena de morte, executada na hora. O desenrolar do confronto entre os policiais e os criminosos foi o esperado. Segundo a PM, os bandidos abriram fogo, e, na troca de tiros, oito deles morreram. Cinco foram presos. O ru, que no estava armado, tambm foi morto na ao. Quem no reagiu est vivo, respondeu o governador de So Paulo, Geraldo Alckmin, quando questionado sobre eventuais exageros na ao policial. Est claro nesse episdio que ns tnhamos um grande nmero de criminosos, com armamento extremamente pesado, participantes de uma faco criminosa, e que a polcia surpreendeu todos eles.
     Os absurdos tribunais do crime tm o objetivo de afastar a polcia das reas onde atuam os grupos criminosos.  mtodo semelhante ao dos bandidos do Rio que trucidaram o grupo de amigos que sara para se divertir. Nos dois casos, chama ateno a facilidade com que os criminosos ocupam terreno, impondo o medo. No Rio, fez algum sucesso a instalao em favelas das Unidades de Polcia Pacificadora (UPPs). Uma delas deve ser erguida logo mais na agora tristemente conhecida favela da Chatuba. Recuperar territrio  essencial. S a ocupao militar no resolve os problemas sociais dessas reas muito pobres, mas sem ela nada funciona, diz o socilogo Claudio Beato, especialista em segurana pblica. 

